Mateus 4:4
Viver a Palavra
Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.
O que significa Mateus 4:4?
Em Mateus 4:4, Jesus, faminto, responde à tentação citando a Escritura. O pão mantém o corpo de pé, mas é a palavra de Deus que de fato sustenta uma pessoa. Nossa vida mais profunda nasce de ouvir e confiar no que Deus diz, organizando os dias em torno disso, e não só do apetite.
Quarenta dias sem comer, sozinho no deserto, e a primeira coisa que o tentador ataca é a necessidade mais razoável do mundo: o pão. Jesus está genuinamente com fome. Não há nada de pecaminoso em querer comer. Ainda assim, esta é a sua resposta: “Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Ele poderia ter argumentado, ou feito um milagre para provar o que dizia. Em vez disso, busca uma frase escrita séculos antes e deixa que ela fale por si.
Vale a pena parar nessa expressão, “está escrito”. Jesus é o Filho de Deus. Ele poderia ter falado palavras novas, com sua própria autoridade. Escolhe não fazer isso. Luta do jeito que pretende que nós lutemos: com a Escritura já dada, já assentada, já verdadeira. Charles Spurgeon reparou nisso e gostou. Saiu a espada do Espírito, escreveu ele, e o Senhor não quis usar outra arma. Se a palavra de Deus bastou para Jesus no deserto, não precisamos de uma mais forte.
As palavras que ele cita remontam aos anos de Israel no deserto, quando Deus alimentou seu povo com maná e lhe ensinou uma lição que eles viviam esquecendo. O pão te mantém vivo por um dia. Não consegue te dizer quem você é, nem por que está aqui, nem para onde vai. Para isso você precisa de toda palavra que vem de Deus, um fluxo constante, e não um versículo solto quando a vida aperta.
É fácil viver só de pão sem nunca perceber. A geladeira está cheia, as contas estão pagas, e a gente segue à deriva, bem nutrida no corpo e, em silêncio, passando fome na alma. Este versículo é um empurrãozinho gentil de volta. A questão não é ler mais por obrigação. É deixar que aquilo que Deus diz realmente molde o dia, as escolhas, as palavras que usamos.
Então dê o pequeno passo. Leia um pouco, depois viva um pouco daquilo. Não diga apenas a palavra. Deixe que ela te alimente, e deixe que sua vida vá aos poucos se parecendo com Aquele que não lhe deu as costas, mesmo estando com fome.
Aprofunde em Mateus 4:4
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Um segundo Adão, sozinho onde o primeiro estava farto
Ajuda-me a reparar onde Mateus colocou esta cena. Ela vem logo depois de Jesus ser batizado e da voz do céu nomeá-lo como Filho, e logo antes do começo do seu ministério público. O Evangelho de Mateus costuma ser lido como um texto escrito pensando, de modo especial, em leitores judeus, gente que sabia a própria história de cor, e o cenário do deserto os convida a ver Jesus refazendo um caminho antigo. Israel também foi chamado de filho de Deus (lá no capítulo 2, Mateus aplica a ele o “do Egito chamei o meu filho”, de Oseias). Israel passou quarenta anos no deserto e fracassou ali repetidas vezes. Jesus passa quarenta dias, e se mantém firme.
Há um eco mais discreto, ainda mais para trás. A primeira tentação da Bíblia veio por causa de comida, num jardim onde havia fartura (Gênesis 3). Esta vem num deserto onde não há nada, a um homem que está de fato faminto. O primeiro estendeu a mão e tomou. O segundo espera. Depois que vi esse contraste, não consegui parar de vê-lo. Mateus não está apenas relatando um acontecimento. Está me mostrando que a longa história do fracasso humano finalmente encontrou alguém que não vai se quebrar.
"Está escrito" permanece escrito, presente e sustentando peso
O grego por trás de “está escrito” é uma única palavra, gegraptai, e está no tempo perfeito. Em grego, esse tempo descreve uma ação passada cujo efeito ainda permanece no presente. Então o sentido é menos “isto foi escrito uma vez, há muito tempo” e mais “isto permanece escrito, e segue de pé agora mesmo”. Esse pequeno detalhe gramatical carrega peso. Jesus não está citando um regulamento empoeirado. Está apoiando todo o seu corpo faminto sobre algo que se sustenta neste exato momento.
A outra palavra em que vale a pena se demorar é “sai”. Toda palavra que sai da boca de Deus. A imagem é presente e fluente, não uma única fala lacrada no passado, mas uma fala que não para de vir. Eu perco isso com facilidade quando trato a Bíblia como um objeto fechado numa prateleira, em vez de uma voz que ainda me alimenta. Há também algo discretamente revigorante no fato de que a figura mais forte da história usa o equipamento mais comum que existe: uma frase lembrada, a mesma ferramenta deixada para todos nós.
Por que ele buscou logo o versículo do maná
A frase que Jesus cita não foi escolhida ao acaso. Deuteronômio 8:3 é Moisés, perto do fim dos anos no deserto, explicando por que Deus deixou o povo passar fome e depois enviou o maná. A fome era justamente o ponto. A intenção era ensinar-lhes que eles não viviam só de pão, mas da palavra e do sustento de Deus. Eles aprenderam devagar, e esqueceram muitas vezes.
Então, quando o tentador diz, em essência, você está faminto, você tem o poder, faça pão, Jesus responde a partir da própria passagem que explica a fome no deserto. Ele está parado onde Israel esteve, recebe o mesmo atalho, e busca a lição que lhes foi dada e que eles não conseguiram guardar. É isso que torna sua resposta tão certeira. Ele não está esquivando-se da questão do pão. Está dizendo que há um sustento mais profundo, e um Pai em quem se pode confiar para dá-lo a seu modo e a seu tempo. O maná caía a cada dia e não podia ser acumulado; era preciso voltar a cada manhã para buscar mais. Esse ritmo, eu suspeito, está bem mais perto de como a palavra de fato nos alimenta do que a fartura ocasional quando a vida aperta.
O pão que desceu procurando por nós
Este versículo se abre para o resto da Escritura de um modo que acho difícil exagerar. Mais tarde, em João 6, Jesus diz que ele mesmo é o pão da vida: “Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais tará sede.” Aquele que se recusou a transformar pedras em pão para o próprio benefício se torna o pão partido para todos os outros. Ele não quis se alimentar por um atalho, e então se entregou como alimento. Há quase todo o evangelho dobrado nessa única virada.
Isso também remodela o jeito como leio a Bíblia. Efésios 6:17 chama a palavra de Deus de “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”, a peça da armadura que você leva para o combate, e o deserto é justamente onde Jesus a maneja assim. Salmo 119:105 a chama de “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho”, luz suficiente para o próximo passo, e não um holofote sobre a estrada inteira. Coloque essas imagens juntas e você obtém um retrato humilde e honesto de como a palavra trabalha num dia comum. Ela me alimenta, ilumina o passo diante de mim, e me dá algo verdadeiro para segurar quando uma voz de aparência razoável oferece um atalho. Jesus mostra o uso antes mesmo de pedir isso de mim.
De pé sobre uma só frase enquanto o estômago reclama
O que mais me impressiona é como sua arma era simples. Ele não venceu o deserto com uma ideia nova e engenhosa nem com uma revelação inédita. Venceu com uma frase que já conhecia e em que confiava o bastante para se apoiar enquanto o corpo argumentava o contrário. Isso é um consolo, porque está ao alcance. Eu jamais vou superar o tentador na argumentação no momento da pressão. Talvez, se eu tiver deixado uma frase verdadeira penetrar de antemão, eu consiga me firmar sobre ela.
O detalhe do maná fica me cutucando aqui. Ele caía a cada dia, e a porção de ontem não servia para hoje. A palavra parece alimentar do mesmo jeito sem pressa: um pouco, tomado com frequência, vivido antes de ser acrescentado. Então a pergunta de verdade, para mim, não é se consigo recitar um versículo sob fogo. É se deixei que um deles me alimentasse fundo o suficiente, nas manhãs comuns, a ponto de ser a primeira coisa que minha mão encontra quando chega o atalho de aparência razoável.
Perguntas para ficar pensando
- Onde estou vivendo, em silêncio, só de pão, bem alimentado no corpo mas sem realmente prestar atenção a algo que Deus esteja dizendo?
- Quando um atalho parece completamente razoável, do jeito que o pão que Jesus tinha direito de comer deve ter parecido, o que de fato me ajuda a esperar pelo caminho do Pai?
- Trato a Escritura como um livro fechado numa prateleira, ou como uma voz que ainda sai e ainda me alimenta hoje?
- Qual é uma frase da palavra de Deus que eu poderia não apenas ler esta semana, mas viver de verdade antes do almoço?
Se você quiser mais com que se alimentar, pode passar um tempo no restante de Mateus ou deixar uma curta leitura diária construir o hábito por meio do versículo do dia.
Versículos que falam sobre isto
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Sim, ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis; para te dar a entender que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor, disso vive o homem.
Deuteronômio 8:3
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Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais tará sede.
João 6:35
-
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Efésios 6:17
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Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho.
Salmo 119:105 →
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